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Tim Marshall: “O mundo vai voltar a ser bipolar no final da década”

Tim Marshall: “O mundo vai voltar a ser bipolar no final da década”

Três crises globais sobrepostas e um mundo atual multipolar tornam difícil uma leitura das forças geopolíticas em jogo. A guerra na Ucrânia teve o mérito de conseguir reunificar a Europa, mas já se começam a abrir brechas entre o Sul e o Norte, e a energia é o cerne da questão.

O mundo está a viver tempos conturbados com crises globais sobrepostas, provocadas pela pandemia de covid-19, pelas alterações climáticas que estão a ditar uma necessária transição energética e com um revés provocado pela guerra na Ucrânia, que veio pôr mais pressão no fornecimento de energia, de alimentos e de diversos componentes industriais necessários ao resto do mundo. Ao mesmo tempo, as forças gravitacionais da geopolítica estão a alterar-se. Comparativamente com a época da Guerra Fria, que opunha EUA e Rússia, “vivemos agora num mundo multipolar que é muito mais difícil de compreender, porque há muitos poderes a disputar posições”, começou por dizer Tim Marshall, jornalista inglês especialista em geopolítica na “Portugal Energy Conference”, uma iniciativa organizada pelo Negócios, Sábado e CMTV sobre o futuro da energia, que decorreu no passado dia 8 de junho, em Lisboa.

Porém, analisando as principais movimentações geopolíticas globais naquele que é “um mundo muito fluido”, o jornalista acredita que “vamos voltar a um mundo bipolar até ao final da década. Desta vez com a China e os EUA e com a maioria dos países a ficarem atrás e a reconhecerem esta realidade”.

Porém, na atualidade, é a guerra na Ucrânia que está a agitar o status quo do mundo. A escalada de preços da energia e os riscos de falta de alimentos já à espreita provenientes dos dois protagonistas da guerra levam à corrida por novos fornecedores nestas áreas-chave. “A oferta restrita equivale a um problema de produção, mas também a preços mais elevados e isso levou a uma contração da globalização e ao abastecimento local. Mas é claro que há uma quantidade limitada de fontes, há competição pelas fontes e é preciso reconstruir a cadeia de abastecimento, que é o que está a acontecer neste momento”, explica Tim Marshall.

No que toca à dependência do gás da Rússia, os países do Norte da Europa são os que enfrentam mais dificuldades, mas neste campo do fornecimento da energia “alguns dos poderes existentes podem fazer [das novas energias emergentes] uma oportunidade. O Reino Unido, por exemplo, não está mal na energia eólica, especialmente na Escócia, e o mesmo acontece em Portugal, com a sua costa atlântica”, referiu o especialista em geopolítica.

São precisamente os impactos causados pela dependência energética da Rússia, sobretudo a norte, que estão a abrir uma brecha numa Europa que se uniu como nunca desde o passado dia 24 de fevereiro. Inicialmente, a Europa teve “uma reação brilhante. O problema surgiu nas últimas duas ou três semanas e há agora uma fragmentação suave entre os países mais a norte e mais a sul. A República Checa, Países Baixos, Polónia, países do Báltico e Reino Unido continuam firmes e têm a visão, tal como os EUA, de que a Rússia tem de ser derrotada. Mas, mais a sul, liderada pela França e pela Alemanha, há agora a visão de que a situação tem de acabar, devido à enorme perda de vidas e impacto económico que está a causar”, refere Marshall. Ainda assim, tendo em conta a história bélica da Rússia e a sua situação geográfica “encapsulada” pelo Ártico a norte, pela NATO a oeste, entre outras forças, “a não ser que se garanta segurança à Ucrânia, eles virão sempre à procura de mais. Portanto, o melhor que se conseguia era adiar o problema por cinco anos”. De qualquer forma, Marshall considera que esta guerra “energizou a União Europeia no sentido de saber para o que é que ela serve, ou seja, para prevenir conflitos”.

O especialista em geopolítica considera ainda que a guerra perpetrada pela Rússia terá sido mal calculada por Vladimir Putin, não só por não esperar a resistência da Ucrânia, mas também por ter sido surpreendido por uma Europa que se reunificou e pela forte intervenção dos EUA, após estes terem “fugido duramente”, no verão passado, da sua intervenção de 20 anos no Afeganistão.

E se no plano terrestre EUA, China e Rússia disputam protagonismo, com a dicotomia EUA/China a desenhar-se, a luta segue também para o espaço como um novo campo de batalha onde os mesmos países já estão a medir forças, destacou Marshall.

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